
O esporte hoje pode ser considerado como um dos maiores fenômenos sociais da atualidade sendo caracterizado desde uma forma elementar de socialização até uma variedade profissional onde participam psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais, fisioterapeutas, médicos, pedagogos, além dos próprios atletas e comissão técnica. ( Rubio et al.,2000 ).
Frequentemente abordamos o esporte como uma atividade em que estão envolvidos grupos ou indivíduos que competem entre si, e a vitória de um, comumente, acarreta a derrota do outro. Entretanto, tal atividade pode, além de ser empregada com esse caráter competitivo, ser usada como um eficiente método educacional e socializador de crianças e adolescentes.
É importante ressaltar que tal método pode ou não obter sucesso em seus objetivos em função da postura do mediador, pois esse tem papel central na prática esportiva e em seus resultados, visto que é esse que conduz tal processo.
Essa atividade além de estar voltada para o rendimento dos atletas nas competições, pode também ser usada para ocupar o tempo ocioso dos participantes, ajudar na socialização, integração, construção da cidadania e da identidade individual e grupal, aquisição de comportamentos assertivos, sofisticação de repertórios comportamentais aprendidos, além de contribuir para a melhora da coordenação motora e de qualidades físicas básicas.
( ... ) motivação, personalidade, agressão e violência, liderança, dinâmica de grupo, bem-estar psicológico, pensamentos e sentimentos de atletas e vários outros aspectos da prática esportiva e atividade física foram incorporados à lista de preocupações e necessidades de pesquisadores e profissionais. ( RUBIO, 2002,p.1 )
É possível e necessário que o mediador responsável pela prática esportiva-educativa, trabalhe, através de oficinas de dinâmica de grupo, palestras e outros meios, temas já citados acima uma vez que tais temáticas estão presentes tanto no setting esportivo como no mundo contemporâneo em que vivemos, onde impera a banalização da violência e a extrema competividade. O esporte sócio-educativo facilita, dessa forma um aprimoramento das relações interpessoais e convívio social dos participantes.
Na IV Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente realizada em Brasília em 2002, foram aprovadas em plenária final propostas com o compromisso de assegurar uma política nacional de cultura, esporte e lazer, de caráter universal, para as crianças e adolescente, que contemple a integração regional e a valorização da cultura local, garantindo recursos financeiros nos orçamentos públicos das três esferas de governo. Também o Estatuto da Criança e Adolescente no seu atigo 59 versa que os municípios, com o apoio dos estados e da União estimularão e facilitarão a destinação de recursos e espaços para programações culturais, esportivas e de lazer voltadas para a infância e a juventude.
Diante disso, é crescente o número de projetos sociais que usam da prática esportiva como ferramenta para uma mesma proposta, propiciar o desenvolvimento biopsicosocial de crianças e adolescentes, como o programa Segundo Tempo, Esporte Esperança, Projeto Esporte Cidadão, estes citando apenas da cidade de Belo Horizonte.e todos norteados pelos mesmos princípios que apresentam como característica inclusão, participação e respeito mútuo dos envolvidos no processo.
Marques( 2000 ), nos apresenta, dentro de nosso contexto contemporâneo, duas maneiras pela qual a prática esportiva pode se apresentar: A prática pela prática e a prática educativa.
A
prática pela prática segundo o autor, acarreta um grande risco para os praticantes, uma vez que de forma alienante reproduz o sistema vigente, e o que é pior sob a máscara de algo saudável, pois comumente dizem que esporte é saúde. A criança ou o adolescente submetido a esse tipo de mediação acreditará que o esporte em si dará conta de realizar as funções necessárias para seu desenvolvimento.
Seguindo a mesma lógica, não é raro, ultimamente, vermos as práticas esportivas associadas com a obtenção de lucros, comercialização de produtos, e ascensão social, onde os atletas são colocados como “escravos” de marcas e logotipos, quase como equinos marcados pelo ferro em brasa de seu dono, além de não serem preparados para uma vida após o término da carreira. Dessa forma, não é raro, no "país do futebol" vermos atletas atuais ou mesmo os egressos de seus clubes, seja em função da idade avançada, de contussões e outras causas,tendo uma vida amoral e desrregrada, sendo frequentemente foco da mídia sensacionalista.

Esse status social vem seduzindo jovens, que cada vez mais cedo, deixam seus lares e estudos de qualidade para tentarem, sob a promessa de “aliciadores” a sorte grande em algum clube de futebol. Além da exploração na maioria das vezes teem que conviver com uma frustração em função de não se mostrarem rentáveis para a sociedade esportiva.
Podemos facilmente exemplificar a explicação descrita acima, quando o esporte como exclusão vai desde a necessidade de escolha dos melhores (tecnicamente falando) para compor um grupo ou mesmo na disputa pelas vagas de titulares.
Percebemos também essa exclusão no que tange ao esporte tradicionalmente praticado nas escolas. Nestas situações, ao invés da atividade física ser uma oportunidade para que todos possam adquirir hábitos saudáveis, tem-se a reprodução do esporte competitivo adulto. Assim aqueles que não possuem repertório ou uma genética "adequada" não tem oportunidade e correm atrás de atestados que livrem-nos do "suplicio".
O Ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz diz em entrevista à revista E.F do Conselho Federal de Educação Física- CONFEF, dentre outras coisas que, o esporte além de socializar, educar, socializar, desenvolver o intelecto, é um promotor de saúde. ( 2003 )
Cillo ( 2002 ) questiona as relações existentes entre saúde, atividades fisícas, esporte e psicologia, e diz:
Esporte, atividade física, saúde e psicologia. Quais relações podem ser feitas entre essas palavras? De um modo geral repetimos o mote Esporte é saúde sendo que nem sempre ele se aplica. Além das lesões decorrentes da prática cabe, também, refletir sobre o modo como a prática esportiva tem sido conduzida. Não precisamos ir muito longe para descobrir que muitas vezes essa é uma prática alienante, e que serve como instrumento de exclusão social. ( CILLO, 2002 )
De maneira alguma os autores querem passar a idéia de que o esporte é prejudicial para o indivíduo, mas dependendo da mediação, tal prática pode sim trazer prejuízos para o praticante.
A
prática educativa oferece ao praticante a oportunidade do mesmo se deparar com experiências que envolvam autoconfiança, auto-estima, dentre outras que contribuam para o desenvolvimento de seu processo educativo, além de permitir a possibilidade de reflexão sobre a prática esportiva, onde gradativamente atribui sentido ao seu comportamento esportivo, pois é protagonista e constrói conjuntamente com técnicos, psicólogos, professores, ou seja, os mediadores, seu processo de socialização e desenvolvimento pessoal. ( MARQUES, pg 88 )
O ministro Agnelo, na mesma entrevista diz também que, a prática esportiva de forma continuada e com o apoio de instrutores só apresenta aspectos positivos.
O caminho para atingir esse objetivo, sem dúvida, vem da mediação que é feita pelo técnico/professor, pois ao trazer um repertório de possibilidades de ação, mostra a essa criança as características lúdicas presentes no jogo, o prazer que pode retirar da sua própria prática, a importância da cooperação para a conquista de objetivos comuns, a hora de e como competir, etc. ( ANIBAL, 2000 pg.93 )
Podemos sem mais problemas entender que o treinador é um mediador assim como os outros citados anteriormente.
( ... ) o trabalho interdisciplinar realizado pelos técnicos/educadores/psicólogos, pode contribuir, pois, agindo como mediadores das relações que a criança e o adolescente estabelecem com os outros e com o mundo, oferecem condições para contribuírem na formação de indivíduos capazes de agirem diante da realidade em que estão inseridos, refletindo sobre as ações que desempenham, construindo assim, o processo de identidade individual. ( Cillo, 2002, pg.3 )
Dessa forma, percebemos a importância da postura do mediador frente a prática do esporte, visto que, esse exerce influência direta na construção da identidade do praticante, pois pode contribuir conjuntamente com a formação de valores orientando para os desafios da vida a partir do que vivência no setting esportivo, trabalhando temas como cidadania, relacionamentos interpessoais, competição e cooperação. ( MARQUES, pg 90 )
De acordo com Cillo ( 2002 ),
por mediação compreende-se poder tornar mais claro e presente as inter-relações da dinâmica esportiva, facilitando e explorando tais relações entre os atores participantes, e continua, versando sobre a importância do trabalho em conjunto, para que se aborde e complete as especificidades de cada área, na ciência que chamamos Psicologia do Esporte.
A Psicologia do Esporte tem como meio e fim o estudo do ser humano envolvido com a prática de atividade física e esportiva competitiva e não competitiva. Esses estudos podem abarcar os processos de avaliação, as práticas de intervenção ou a análise do comportamento social que se apresenta na situação esportiva a partir da perspectiva de quem pratica ou assiste ao espetáculo. ( RUBIO, 2002, pg.1 )
Dessa forma podemos concluir o importantíssimo papel do mediador, e como ele pode em função de seus comportamentos interferir no sucesso dos objetivos socializadores e educativos do esporte. É necessário também o trabalho interdisciplinar para que assim o sujeito possa ser abordado em todos os seus âmbitos, para que as mudanças de atividade venham acompanhadas de mudanças de consciência, pois o físico e o psíquico são duas faces de uma mesma unidade. Dar respaldo psicológico à pessoa que pratica o esporte é tão importante quanto lhe fornecer uma alimentação balanceada por nutricionistas.
Bibliografia e Referências BibliográficasAssociação Municipal de Assistencia Social- AMAS http://www.amas.org.br
CASTRO, R.Ué! Onde foram parar as crianças? Caderno2/ Cultura. Jornal O Estado de S. Paulo, 24.10.99
CILLO, E.N.P. O desenvolvimento do projeto de psicologia aplicada ao esporte- Associação Fique Vivo/ FEBEM Tatuapé. São Paulo, 2002. www.projetoveredas.com.br
Estatuto da criança e do adolescente
FERREIRA, A.B.H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa- Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p.403.
MARQUES, J.A.A. A iniciação esportiva como meio educacional por meio do trabalho interdisciplinar. Encontros e desencontros: descobrindo a psicologia do esporte. Casa do Psicólogo, São Paulo, 2000, pg 87- 96.
MARQUES, J.A.A e Kuroda, S.J. Iniciação esportiva: um instrumento para a socialização e formação de crianças e jovens. Psicologia do esporte: interfaces, pesquisa e intervenção. Casa do psicólogo, São Paulo, 2000, pg 125-138.
PACTO PELA PAZ. Propostas Aprovadas na Plenária Final. IV Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Brasília -DF, 2002, pg.12.
Revista E.F. Ano II. Nº 06. Março de 2003. pagina 16 à 19.
RUBIO, Katia. Origens e evolução da psicologia do esporte no Brasil.Biblio 3W, Revista Bibliográfica de Geografía y Ciencias Sociales, Universidad de Barcelona, Vol. VII, nº 373, 10 de mayo de 2002. http://www.ub.es/geocrit/b3w-373.htm [ISSN 1138-9796]
RUBIO,K.; QUEIROZ,C.; MONTORO,F.; KURODA,S.&MARQUES,J. A.Revista Metropolitana das Ciências do Movimento Humano. Vol.IV, nº1,2000 ( no prelo )